Anatomia de um Projeto: Shouk (1)
Final de abril. No meio da correria habitual no escritório, um telefonema. Felipe, antigo cliente com parceria de alguns bons anos, nos chama para um novo desafio. Reunião marcada.
Tarde agradável, entre novidades e risadas, a encomenda do projeto: toda a identidade visual para um novo espaço gastronômico-cultural em São Paulo. Explico: gastronômico por unir café e bistrô, e cultural por incorporar revistaria e livraria. O desafio cresce à medida que a noite surge e particularidades do empreendimento nos são apresentadas — unir nesse espaço um amálgama da cultura do Oriente Médio e norte da África, reunido já no nome: shouk (lê-se chuk), palavra que significa mercado em árabe.Desde a arquitetura até o cardápio, passando até pelo acervo da livraria, tudo seria como um mercado árabe, com suas tonalidades e elementos criando harmonia com a metrópole paulistana.
Mas é claro que rolou um susto nessa reunião: havia dois cartões de visitas, que mesmo sendo provisórios (feitos em gráfica rápida, para uma divulgação inicial do local, descobrimos logo depois), causaram um desconforto — a preocupação geralmente não passa nem pela qualidade da “coisa” em si, mas sim imaginar que o projeto poderia começar engessado, à nossa revelia. Não era o caso, só ficou um aviso de que poderíamos considerar a paleta de cores utilzada como ponto de partida.
Muitas vezes temos a sensação que chegamos depois do momento certo em determinado projeto. Nós designers não temos como controlar isso por parte dos clientes. O que se observa é que quanto mais o mercado amadurece, menos incêndios temos que apagar. E consolidar esse cenário só é possível quando nas ocasiões em que não somos bombeiros podemos alertar os clientes do perigo que é deixar uma chama se alastrar. Quanto mais confiança no design enquanto atividade, menos os clientes relutarão em contratá-lo, o que significa prazos melhores e uma relação profissional mais saudável.
É claro que há clientes que não estão preparados e nem querem isso por parte dos designers. Daí, das duas uma: se é um cliente rentável, apaga-se os incêndios enquanto o faturamento não causar olheiras demais. Se não for, avaliar a tentativa de evangelizá-lo, mesmo que continue pagando pouco — pelo menos pode-se pleitear espaço para experimentação e inovação, o que muitas vezes torna o cliente fiel e estimula a indicação para outras empresas, onde aí — quem sabe — poderá se cobrar um pouco mais.
No final da reunião, tarde da noite, marcamos de visitar o local dali a 2 dias para fazer fotografias, além de rediscutir o briefing de forma oficial e iniciarmos efetivamente o projeto.
Continua…
